Iniziative e bella gente, parte 2

All’incontro di oggi siamo pochi ma buoni: due magistrati, una alto funzionario del Comune, il presidente del Consiglio Municipale di Pubblica Sicurezza, un comandante di Polizia ed io. Il luogo: palazzo del tribunale. In tanti anni di lavoro a quante riunioni come questa ho partecipato? Lo sapevo, me lo aspettavo: normalmente dopo tanto ciarlare, la decisione solenne si riduce nel fissare la data del prossimo incontro. È sempre così. Mi si potrà criticare il cinismo e il disincanto, ma è proprio così. L’esperienza mi ha insegnato – e ciò nonostante continuo a caderci – che quando tanta bella gente si riunisce mossa da nobili intenzioni, bisogna sempre rimanere ben svegli, attenti e vigliare.
Tutto comincia alcuni anni fa, quando un importante comandante della Polizia Militare, prima di andare in pensione, desidera lasciare la sua impronta definitiva per risolvere una volta per tutte il problema-incubo, la presenza dei meninos de rua. È senz’altro mosso da buone intenzioni, non discuto. Alla riunione convocata nel salone panoramico del palazzo più alto della città, sono presenti i rappresentanti di decine di organizzazioni che lavorano su questo tema. Parentesi: ricordiamoci che i bambini di strada, quando molto, saranno tremila, e che il numero delle associazioni che si occupano di loro si avvicina ormai a cinquecento; Ong nazionali e soprattutto straniere si spartiscono il bottino di milioni di dollari messi a disposizione da governi e entità private con lo scopo… beh, lasciamo perdere. Chiusa parentesi.
Il comandante prende la parola e dopo i salamelecchi di rito annuncia la formazione di un gruppo, insignito di tutta l’ufficialità della situazione, che finalmente attaccherà il problema alla radice. Il suddetto gruppo disporrà di tutta la logistica all’ultimo grido messa gentilmente a disposizione dalla Polizia Militare. Il coordinatore del gruppo è persona nota negli ambienti. Il nostro amico, il Grande Lombardo e la sua collega, la Grande Lombarda, ci hanno discusso più volte, soprattutto quando, pur sapendo, non mosse un dito per denunciare i pedofili che si approfittavano dei meninos, anzi, nottetempo prelevava a forza quegli stessi meninos con l’aiuto di uomini e mezzi di quella polizia militare che oggi parla attraverso il suo comandante nel salone panoramico, per deportarli ai confini della città. Mi sono persa, vediamo di ricapitolare. Anni fa in una riunione nel salone panoramico, il comandante annuncia la formazione di un gruppo che ecc ecc. Il comandante va in pensione e il gruppo muore appena nato. La proposta del comandante e del coordinatore del gruppo era quella di iniziare con un censimento, un “cadastro”, un elenco di tutti i bambini per sapere esattamente chi fosse ciascuno di loro, da dove venisse, l’età, nome dei genitori e chi più ne ha più ne metta, insomma una vera e propria schedatura in massa. Un’azione del genere non dico che non è prevista, ma addirittura è proibita, la legge, attraverso lo Estatuto da Criança e do Adoloscente (l’insieme di norme per la tutela dell’infanzia e della gioventù, che vige nel paese da sedici anni e che è una delle più grandi conquiste dei diritti civili), lo proibisce espressamente. È facile intuire il perché, la ragione di tutto questo. Un banco di dati ufficiale, nelle mani della polizia militare, faciliterebbe il lavoro, non ci sarebbe più neanche bisogno di indagini, il delinquente sarebbe schedato dalla nascita, lo si aspetta alla soglia dei diciotto anni e, zac!, una bella mazzata. Tante teste pensanti, tante autorità, tante Ong nazionali e straniere e la proposta è una schedatura in massa! Salone panoramico, bella gente e baciamani.

Stavolta invece, la cosa sembra seria. La riunione è nel palazzo del tribunale, niente baciamani. I due giudici presenti premettono che loro, in qualità di magistrati, devono attenersi alla legge e nulla più. Giusto, bravi. Il presidente del Consiglio Municipale di Pubblica Sicurezza viene direttamente da un incontro con l’ex-presidente della Fiesp (la nostra Confindustria) che si è dimostrato pronto a collaborare con tutti i suoi mezzi per risolvere il problema-incubo. Bravo pure lui.
Parentesi: una ventina d’anni fa, questo illustre personaggio dichiarò che in caso di una vittoria di Lula alle elezioni presidenziali, avrebbe lasciato il paese, sarebbe partito per un doloroso esilio. Le elezioni le vinse Fernando Collor grazie all’aiuto di uno schema di corruzione di milioni di dollari. Collor venne denunciato dal proprio fratello, fu instaurato un processo di impeachment nel quale si scoprì che tra i tanti, anche il nostro presidente della Fiesp contribuì con duecentomila dollari. Chiusa parentesi.
 Lo scopo della riunione di oggi e quello di farsi vedere, di dirsi l’un l’altro: siamo qui, siamo pronti ad agire. Per fortuna (o, diciamolo meglio, per incapacità, ignavia, malavoglia) che niente poi si concretizza, che si rimane sul discorso sterile. Esco dal tribunale, vado in piazza.
Tia, tia Edith. Arrivano un paio dei miei meninos: come sei bella, tia, quanto tempo, quando torni con noi? Presto, rispondo. Non è vero, ho detto una bugia.
Presto invece sarò in una nuova riunione per elaborare nuove e fruttuose iniziative. Con tanta bella gente.

Edith Moniz

     
Iniciativa e gente boa, parte 2
Na reunião de hoje pouca gente, mas da boa: dois juizes, um alto funcionário da prefeitura, o presidente do Conselho Municipal de Segurança, um comandante da Polícia e eu. O lugar: o Fórum central. Em tantos anos de trabalho a quantas reuniões como essa participei? Sabia, já esperava: normalmente, depois de tanto falatório, a decisão solene se reduz ao marcar a data da próxima reunião. É sempre assim. Agora podem me criticar pelo cinismo e pelo desencanto, mas é assim mesmo. A experiência me ensinou – e apesar de tudo continuo acreditando – que quando tanta gente boa se reúne movida por nobres intenções, precisa sempre ficar de olhos bem abertos, atentos e vigiar.
Tudo começa alguns anos atrás, quando um importante comandante da Polícia Militar antes de se aposentar deseja deixar a sua marca definitiva para resolver de uma vez por todas o
problema-pesadelo, a presença dos meninos de rua. Está, sem dúvida, repleto de boas intenções, não discuto. À reunião convocada no salão panorâmico do prédio mais alto da cidade, estão presentes os representantes de dezenas de organizações que trabalham neste campo. Parêntese: é bom lembrar que o número das crianças de rua, assim por alto, é de no máximo três mil, e que o número das associações que se ocupam deles se aproximam mais ou menos quinhentas; Ong nacionais e principalmente estrangeiras partilham entre si a quantia de milhões de dólares colocados à disposição por governos e entidade privados com a finalidade… vai, deixa prá lá. Fecha parêntese.
Depois dos beija-mãos rituais, fala o comandante e anuncia a formação de um grupo sob a insígnia de toda a oficialidade da situação que atacará o problema na raiz. Dito grupo terá a disposição toda à logística de última geração colocada à disposição pela Polícia Militar. O coordenador é pessoa muito conhecida no ambiente. O nosso amigo, o Grande Lombardo e a sua colega, a Grande Lombarda, discutiram com ele várias vezes, principalmente quando, mesmo sabendo, nada fez para denunciar os pedófilos que se aproveitavam dos meninos, muito pelo contrário, na escuridão da noite pegava os meninos à força com a ajuda de homens e meios daquela polícia militar que hoje fala através do seu comandante no salão panorâmico, para deportá-los aos confins da cidade. Pronto, me perdi. Tentarei resumir: anos atrás numa reunião no salão panorâmico, o comandante anuncia a formação de um grupo que etc. etc. O comandante se aposenta e o grupo morre ao nascer. A proposta do comandante e do coordenador do grupo era aquela de iniciar com um censo, um cadastro, um elenco de todos os meninos para saber exatamente quem fosse cada um deles, de onde viesse, a idade, o nome dos pais e todas as informações possíveis: um verdadeiro fichário de massa. Uma ação deste tipo não digo que não é prevista, mas é proibida mesmo; a lei, através do Estatuto da Criança e do Adolescente (o conjunto de normas pela tutela da infância e da juventude que está em vigor há dezesseis anos e que é uma das maiores conquistas dos direitos civis) o proíbe expressamente. É fácil intuir o motivo de tudo isso. Um arquivo de dados oficiais, nas mãos da polícia militar, facilitaria o serviço, não precisa mais de nenhum inquérito, o marginal seria fichado desde o nascimento, esperam-se os dezoito anos e, bum! Uma bela cacetada. Tantas cabeças pensantes, tantas autoridades, tantas Ong nacionais e estrangeiras e a proposta são fichar todo mundo! Salão panorâmico, boa gente e beija-mão.

Desta vez a coisa parece séria. A reunião é no fórum central, nada de beija-mão. Os dois juizes presentes falam de antemão que eles, como magistrados, devem manter-se estritamente conforme a lei, nada mais. Muito bem, bravos. O presidente do Conselho Municipal de Segurança vem diretamente de um encontro com o ex-presidente da Fiesp que se demonstrou pronto a colaborar com todos os seus meios para resolver o problema-pesadelo. Bravo ele também. Parêntese: uns vinte anos atrás, este ilustre senhor declarou que se no caso Lula vencesse as eleições presidenciais, ele teria deixado o país, teria saído para amargar um doloroso exílio. As eleições foram ganhas por Fernado Collor graças à ajuda de um esquema de corrupção de milhões de dólares.
Collor foi denunciado pelo próprio irmão, instaurou-se um processo de impeachment no qual se descobriu que entre os tantos, também o nosso presidente da Fiesp contribuiu com duzentos mil dólares. Fecha parêntese.
A finalidade da reunião de hoje é aquela de se mostrar, de dizer um ao outro: estamos aqui, estamos prontos para agir. Por sorte (pela incapacidade, indolência e má vontade) nada se concretiza, tudo permanece no discurso estéril. Saio do tribunal chego na praça.
Tia, tia Edith. Chegam alguns dos meus meninos: como está linda, tia, quanto tempo, quando volta aqui com a gente? Logo, respondo. Não é verdade, é mentira.
Logo estarei numa nova reunião para elaborar novas e frutuosas iniciativas. Com tanta gente boa

Edith Moniz