The rest is silence. Non ci riesco

Forse davvero sarebbe meglio il silenzio.

Oppure un servizio al telegiornale.

O un articolo con foto in bianco e nero per far apparire la realtà ancora più tenebrosa.

O forse sarebbe meglio guardarsi dentro e cercare qualcosa da dire, per poter pensare, trovare in me stessa le risposte giuste o, chissà, le domande esatte con le quali è possibile arrivare alle risposte, non so, è tutto cosi confuso ed allo stesso tempo così chiaro…

Il fatto è che adesso, parlare ancora una volta di quello che è impossibile essere raccontato, l’indicibile, è per me un’impresa penosa più che mai.

Posso cominciare elencando uno ad uno il numero di passi che lega la caserma dell’alto comando della polizia militare con quella della polizia metropolitana. Cento passi, cento mila… forse la stessa distanza che esiste tra gli incompatibili cuori e le sorde menti degli uomini, lo spazio siderale generato dalla violenza dell’indifferenza, dal cinico gioco del far-finta-di-niente di questa nostra città ipocrita. In questi cento passi adesso voglio contare le macchine delle polizia che ho visto in poco più di due ore: dieci. In ogni macchina, quattro uomini. E adesso gli otto uomini a cavallo, a girare qua e là, più gli otto uomini a cavallo fermi in piazza. Trentadue, tra quadrupedi e bipedi. Quelli in pattuglia a piedi in coppia. Tutte le polizie del mondo, quando a piedi, vanno in coppia: diciannove. Un numero dispari, penso di essermi confusa. E questo senza contare le due basi mobili e quella fissa con tanto di ambulanza parcheggiata sulla porta. E senza contare gli uomini destinati al servizio in queste due basi. E senza contare che ho dimenticato di menzionare in quei cento passi il commissariato della polizia civile del terzo distretto. E sono rimasti fuori pure la dozzina di agenti sanitari, con tanto di uniforme e cartellino appeso al collo, in cerca di qualcuno disposto a seguirli. E tutto questo in un territorio di una decina di isolati. Un quartiere intero occupato militarmente in una offensiva mostruosa contro il traffico di droga. Sissignori. Il traffico di droga, o meglio, di una droga specifica: il crack. La polizia, il comune, i commercianti e le loro nauseabonde associazioni, l’opinione pubblica coi suoi telegiornali fatti di vomito, tutti uniti in una santa crociata contro il traffico di droga! in nome della rivitalazziazione del centro! per attirare i finanziamenti del BNDES (Banca Nazionale per lo Sviluppo) e il PAC (Piano di accelerazione della crescita economica), fiore all’occhiello del governo federale!

Ma è successo un piccolo problema: si sono dimenticati di avvisare i drogati. Le centinaia di persone che in quelle strade si trascinano come zombie fin da quando, vent’anni fa, arrivò in città la droga fatta apposta per loro, il crack: un pugno di monete per una tirata. E il mercato è garantito. Nessuno li ha avvisati che il quartiere era occupato, che le demolizioni sono cominciate e che il comune ha convocato la crema dell’elite nazionale e straniera per pianificare nuovi usi per quell’area. Loro, i drogati, sono ancora lì, belli e forti, stracci ambulanti sdraiati per terra, avvolti in coperte purulente, ammucchiati a decine sotto un portico, appoggiati al muretto. Seduti sul marciapiede tra le macchine parcheggiate a fumare il crack mentre un coppia qualunque di soldati perquisisce un infelice scelto a caso, mentre passano i cavalli, le vetture, mentre la caserma dell’alto comando, il commissariato e la polizia metropolitana, i giornalisti e l’opinione pubblica, si uniscono nel coro del consenso.

Sono felice di aver passeggiato per due ore nel deserto urbano di quelle strade, tra le demolizioni in atto e quelle ancora da fare. Sono felice di non aver visto nessuno dei miei meninos autodistruggersi nel crack o essere perquisito e arrestato. Sono felice di non aver visto nessuna delle mie bambine vestita da puttana, sulla porta di quelle decine di pensioni e alberghetti di puttane “misteriosamente” riaperti subito dopo essere stati chiusi nella delirante operazione mediatico-militare che ha dato l’inizio alla cosidetta “riqualificazione urbana”, in presenza di sindaco, governatore, deputati, e i più svariati capetti di tutte le associazioni della città. Alberghetti che adesso funzionano normalmente, con puttane sulla porta e annessi e connessi. Sono felice di non aver incontrato nessuno dei miei meninos. O meglio, ne ho visto uno sì, ma lontano da lì. Uno dei miei che ho cercato apposta per consegnagli la fotocopia del suo documento di identità (l’originale lo tengo io nel cassetto). Sono felice perché mi ha detto che con il mio nuovo taglio di capelli ero molto bella.

Sull’autobus che mi riportava a casa ho voluto, ad occhi ben aperti, riempirmi di tutto il rumore di cui la mia città è capace per tappare il vuoto dell’assenza della mia anima rimasta in quelle strade.

José Saramago direbbe: “e adesso è il tacere”. Ed è esattamente quello che vorrei fare, tacere. Ma non posso e non ci riesco, non ci riesco, non ci riesco.

The rest is silence. Não consigo.

Talvez o melhor mesmo seja o silêncio.

Ou uma matéria do telejornal.

Ou um artigo com fotos em preto e branco para deixar a realidade anda mais sombria.

Ou talvez o melhor mesmo fosse olhar para dentro e procurar alguma coisa para dizer, para pensar, achar em mim mesma as respostas certas, ou, quem sabe, as perguntas certas pelas quais é possível chegar às respostas, sei lá, está tudo tão confuso e ao mesmo tempo tão claro…

É que agora, contar mais uma vez o que é impossível de ser contado, o indizível, é para mim tarefa mais que penosa.

Posso começar enumerando um por um os passos que ligam o quartel do alto comando da polícia militar com aquele da polícia metropolitana. Cem passos, cem mil…, talvez a mesma distância que existe entre os incompatíveis corações e as surdas mentes dos homens, o espaço sideral gerado pela violência da indiferença, pelo faz de conta desta nossa cidade hipócrita. Nestes cem passos agora quero contar os carros de polícia que vi em pouco mais de duas horas: dez. Cada carro, quatro homens. E agora os oito homens a cavalo, andando pra cá e pra lá, mais os oitos homens a cavalo parados na praça. Trinta e dois entre quadrúpedes e bípedes. Aqueles de patrulhas a pé em dupla. Toda a polícia do mundo, quando a pé, anda em dupla: dezenove. Um número impar, acho que me confundi. Isso sem contar as duas bases móveis e a fixa, com tanto de ambulância na porta. E sem contar os homens destinados ao serviço nestas duas bases. E sem contar que esqueci de mencionar naqueles cem passos, a delegacia da polícia civil do terceiro distrito. E também ficaram de fora a dúzia de agentes de saúde com belo uniforme e crachazinho em busca de alguém disposto a segui-los. E tudo isso num território de uma dezena de quarteirões. Um bairro ocupado militarmente numa ofensiva monstruosa contra o tráfico de droga. Sim senhor! O tráfico de droga, ou melhor, uma droga específica: o crack. A polícia, a prefeitura, os comerciantes e as suas nauseabundas associações, a opinião pública com seus telejornais feitos de vômito, todos unidos numa santa cruzada contra o tráfico de droga! pela revitalização do centro! para atrair financiamentos do BNDES e do PAC, orgulho do governo federal!

Mas aconteceu um pequeno problema, esqueceram de avisar os drogados. As centenas de pessoas que naquelas ruas perambulam como zumbi desde que, há vinte anos, chegou na cidade a droga feita de propósito para elas, o crack: um punhado de moedas por uma pedra. E o mercado é garantido. Ninguém avisou que o bairro estava ocupado, que as demolições começaram e que a prefeitura convocou a fina flor da elite nacional e estrangeira para planejar novos usos da área. Eles estão lá firme e fortes, trapos humanos deitados no chão enrolados em cobertores purulentos, amontoados a dezenas debaixo de um alpendre, apoiados nas muretas. Sentados nas sarjetas, entre os carros estacionados fumando o crack, enquanto uma dupla qualquer de soldados revista um infeliz escolhido ao acaso, enquanto passam os cavalos, as viaturas, enquanto o quartel do alto comando, a delegacia e a polícia metropolitana, os jornalistas e a opinião pública se unem no coral do consenso.

Fiquei feliz de passear duas horas no deserto urbano daquelas ruas, entre as demolições. Fiquei feliz de não ter visto nenhuma das minhas crianças se acabar no crack ou ser revistada e preso. Fiquei feliz de não ter visto nenhuma das minhas meninas vestida como puta na porta daquelas dezenas de pensões e hoteizinhos de putas “misteriosamente” reabertos logo depois de ter sido fechados na delirante operação midiático-militar que deu a partida para a assim chamada “requalificação urbana”, na presença de prefeito, governador, deputados e os mais variados chefes de todos as associações da cidade. Hoteizinhos que agora funcionam normalmente, com putas nas portas e tudo mais. Fiquei feliz de não ter visto nenhuma das minhas crianças. Ou melhor, vi uma, mas longe dali. Um dos meus que fui procurá-lo de propósito para entrega-lhe a fotocópia do seu documento de identidade (o original fica bem guardado comigo). Fiquei feliz porque me disse que com o meu novo corte de cabelo estava muito bonita.

No ônibus de volta para casa quis, de olhos bem abertos, encher-me de todo o barulho de que a minha cidade é capaz, para preencher o vazio da ausência da minha alma que ficou naquelas ruas.

José Saramago diria: “e agora é calar”. E é exatamente o que queria fazer. Mas não posso e não consigo, não consigo, não consigo.