Há uma música do Povo

Há uma música do Povo (C’è una canzone del Popolo – Fernando Pessoa)

C’è una musica del popolo
Non saprei dire se è un fado
Che all’ascolto ha un ritmo nuovo
Nell’essere che tengo nascosto…

Ascoltandola io sono chi sarei
Se desiderassi esserlo…
È una semplice melodia
Di quelle che si imparano vivendo…

Ma è così consolatrice
La vaga e triste canzone…
Che la mia anima già non piange
E neppure il mio cuore…

Sono una emozione straniera,
Un errore di sogno andato
In ogni modo canto
E rimango con un sentimento!

È strano cominciare la mia annuale riflessione sul carnevale col citare Fernando Pessoa. Cosa poteva saperne lui, portoghese, del carnevale del Brasile? Come poteva lui immaginare, poeta dell’intima inquietudine, l’orgia dionisiaca nata dalle e nelle ferite della mia gente? Che cosa poteva mai dire quell’ometto grigio sulla “tristeza que balança” (la “tristezza che dondola” – come la definisce Vinícius de Moraes) che risiede nelle profondità di ogni samba, anche quando nascosta sotto il sorriso e la frenesia?
Há uma música do povo… C’è una musica del popolo… vaga e triste canzone… così consolatrice… emozione straniera… sogno andato…: il poeta lo sa senza saperlo. Ed anche a migliaia di chilometri e decine di anni di distanza, il poeta canta l’ambiguità del cuore dell’uomo, il poeta racconta o inenarrável, ciò che non si può narrare.
È cosi che vedo e interpreto la mia gente, o meu povo, un inennarrável cuore capace di “acabar com um sentido” rimenare con un sentimento, con qualunque sentimento possibile. Capace di vivere e sopravvivere ad ogni costo. Capace di sapersi vivo nonostante…
Nella mia città, nel mio paese, non accadono tragedie, solamente offese. Solamente insulti. Le tragedie si superano con il lavoro e con il tempo. Dalle offese, dagli insulti nessuno è capace di fuggire. Rimangono incollati a noi per sempre come stigma del nostro esistere, in modo tale che finiamo per identificarci con essi, forgiando la nostra personalità, accettandoli come verità. E allora perché, per quale ragione continuiamo a vivere qui, in questa città così terribile, che ci fa ammalare per la mancanza di un’aria respirabile, per la mancanza di uno spazio degno? Perché continuiamo a vivere accanto alla ripugnate ipocrisia del potere? Per quale ragione si è formata questa maledetta crosta di pus sulla convivenza, sul convivio tra le persone che ci fa considerare l’altro al nostro fianco  non come un compagno di viaggio ma come un avversario da essere combattuto?
È che la mia gente, nascosta, timorosa, disorientata delle menzogne quotidiane, continua semplice nei gesti e nel parlare mansueto, dolce e piena di amore alla vita, traboccante di sincera ingenuità, che non riesce ad accorgersi, per l’assoluta assenza di cattiveria, di essere costantemente pestata, umiliata, fatta ostaggio di sogni di plastica. Ma so, perché così sento, perché così voglio, che sotto tutto questo esiste carne viva, la carne più viva del mondo, la più autentica possibile, che oggi canta, danza ed è capace di amare se stessa e il mondo come non mai.
Há uma música do povo. C’è una musica del popolo. C’è una musica nel popolo. Il mio popolo. Viva o Carnaval! Viva o Brasil!

São Paulo, Carnaval 2010
Edith Moniz


Há uma música do Povo

Há uma música do Povo
Nem sei dizer se é um Fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado…

Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser…
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver…

Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção…
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração…

Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido…
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!

(Fernando Pessoa)

É estranho começar a minha reflexão anual sobre o Carnaval citando Fernando Pessoa. O que podia saber ele, português, do Carnaval do Brasil? O que podia imaginar ele, poeta do íntimo desassossego, da orgia dionisíaca nascida das e nas feridas da minha gente? O que podia dizer aquele homenzinho cinza a respeito da “tristeza que balança” que reside na profundeza de todos os sambas, mesmo quando disfarçados por sorrisos e frenesi?
Há uma música do povo… vaga e triste canção… tão consoladora… emoção estrangeira… sonho ido… : o poeta sabe sem saber. E mesmo a milhares de quilômetros e dezenas de anos de distância, o poeta canta a ambigüidade do coração do homem, o poeta conta o inenarrável.
É assim que enxergo o meu povo: um inenarrável coração capaz de “acabar com um sentido”, com qualquer sentido. Capaz de viver e sobreviver a qualquer custo. Capaz de saber-se vivo apesar de.
Na minha cidade, no meu país, não acontecem tragédias, somente ofensas. Somente insultos. As tragédias se superam com o trabalho e com o tempo. Das ofensas, dos insultos ninguém é capaz de fugir. Ficam grudados em nós para sempre como estigma do nosso ser, de tal forma que acabamos por identificarmo-nos com estes, forjando a nossa personalidade, aceitado-os como verdade. E então porque, por qual razão continuamos a viver aqui, nesta cidade tão terrível, que nos faz adoecer por falta de um ar respirável, por falta de um espaço digno? Por que continuamos a viver lado a lado com a repugnante hipocrisia do Poder? Por qual razão formou-se esta maldita crosta de pus sobre a convivência, sobre o convívio entre as pessoas, que nos faz encarar o outro ao nosso lado como um adversário a ser combatido e não como um companheiro de viagem?
É que a minha gente, escondida, temerosa, desorientada pelas mentiras diárias, continua simples nos gestos e de fala mansa, doce e cheia de amor á vida, repleta de verdadeira ingenuidade, que não consegue perceber, por absoluta falta de maldade, que está sendo pisoteada, humilhada, feita refém de sonhos de plásticos. Mas sei, porque sinto assim, porque quero assim, que debaixo disso tudo há carne viva, a carne mais viva do mundo, a mais autêntica possível, que hoje canta, dança e é capaz de amar a si mesma e o mundo como nunca.
Há uma música do povo. Há uma música no povo. O meu povo. Viva o Carnaval! Viva o Brasil!

São Paulo, Carnaval 2010
Edith Moniz