Polvere

Senza nome, di età indefinita, risucchiata da una magrezza asiatica, la ragazza si trascina tra la polvere dell’asfalto notturno. Con il dito indica il foro nella gamba. La ferita non curata suppura sporcizia d’un fetore solido. Fu lo sparo a bruciapelo di una arma illegale del sodato di Erode. La ragazza è medicata in un ospedale di morti-viventi tra il lordume incommensurabile e le urla del delirio. E subito dopo torna a trascinare il suo corpo impalpabile nelle stesse strade che marchiarono a fuoco il suo destino per sempre. I sodati di Erode torneranno presto a terminare il lavoro. Mai più di lei, ferita e mal curata, si avrà notizia alcuna. Piombo perfino sul ricordo. La ragazza senza nome e di età indefinita è adesso, definitivamente, polvere.
È facile descrivere l’orrore.
Le strade nell’eterna oscurità di una notte permanente sono fatte di rumori e paura. Una paura ancestrale, paura animale che penetra le mie carni e non mi lascia più, non può lasciarmi: attanaglia l’essenza del mio essere. È la paura intollerabile di una solitudine ancora più grande dell’abbandono. È la paura infinita dell’annichilamento dell’anima nella totale mancanza di una prospettiva di vita. La mia paura è la ragazza ferita. La mia paura è il pus dell’infezione, è il mormorio di lei che vive nascosta in uno scatola di cartone buttata all’angolo del marciapiede. La mia paura è polvere. La mia paura è la ripetizione dei miei gesti impotenti davanti al dolore dell’innocente, nell’eterno presente di un passato mai concluso.
Sono diventato quello che non vorrei essere. Sono diventato l’oscurità della mia stessa paura.

Per quale ragione le mie domande non cessano?
Per quale ragione le domande sono le stesse da sempre?
Perché questa attesa senza fine?
Perché è così alto il prezzo da pagare?
Perché sei così distante?
Perché la felicità non esiste?
Perché mi hai voluto così?
Perché questo vuoto nel cuore degli uomini?

Come consolarti
se io, come te, sono inchiodato a questa croce di silenzio e impotenza?
Come lavare il tuo viso
se il mio è massacrato da ferite che mai cicatrizzano?
Come ascoltare il tuo lamento
se il mio lacera le mie stesse orecchie?
Come trovarti
senza liberare i miei occhi dalle bende della tortura?
Come arrivare
senza sciogliere i legacci?
Come riconoscerti
se rimani nascosto nel profondo?
Come sapere se questo rantolo che ho in petto
è soffio di vita o annuncio di morte?
E adesso, Padre, che definitivamente mi hai abbandonato
in questo deserto abitato da milioni,
dove andrò?

Siedo sul ciglio della strada
per non essere travolto
divento ombra
divento pietra.
Io pugno chiuso rannicchiato in me
aspetto,
chissà… un giorno… forse…
essere triturato
trasformarmi in polvere
e poter, finalmente, volare.

São Paulo, Brasil, Settimana Santa 2010
Edith Moniz
Paolo D’Aprile

Sem nome, de idade indefinida, enxugada numa magreza asiática, a garota se arrasta entre a poeira do asfalto noturno. Com o dedo aponta o furo da perna. A ferida não curada supura sujeira de um fedor sólido. O disparo a queima-roupa do soldado de Herodes foi duma arma não registrada. A garota é atendida num hospital de mortos-vivos entre a sujeira incomensurável e os gritos dos delírios. E logo volta a arrastar o seu corpo evanescente nas mesmas ruas que marcaram a fogo para sempre o seu destino. Os soldados de Herodes voltaram para terminar o serviço. Nunca mais a garota será vista. Nunca mais dela se terá notícia alguma. Chumbo até na lembrança. A garota sem nome e di idade indefinida é agora definitivamente pó.
É fácil descrever o horror.
As ruas na escuridão eterna de uma noite permanente são feitas de ruídos e medo. Um medo ancestral, um medo animal que penetra as minhas carnes e não me deixa, não pode me deixar: agarrou-se a essência do meu ser. É o medo intolerável duma solidão ainda maior que o abandono. É o medo infinito da aniquilação da alma na falta total da perspectiva de vida. O meu medo é a criança ferida a bala, o meu medo é o pus da infecção, é o murmúrio da menina que vive escondida na caixa de papelão jogada num canto da calçada. O meu medo é o pó. O meu medo é a repetição dos meus gestos impotentes frente a dor do inocente, na eterno presente de um passado que nunca terminou. Tornei-me o que não gostaria de ser. Tornei-me a escuridão do meu próprio medo.

Por qual razão as minhas perguntas não cessam?
Por qual razão as perguntas são as mesmas desde sempre?
Por que esta espera sem fim?
Por que é tão alto o preço a pagar?
Por que estás tão distante?
Por que a felicidade não existe?
Por que me fez assim?
Por que este vazio no coração dos homens?

Como consolar-te,
se eu, como tu, estou pregado a esta cruz de silêncio e impotência?
Como lavar o teu rosto
se o meu é massacrado por feridas que nunca saram?
Como escutar o teu lamento
se o meu dilacera os meus próprios ouvidos?
Como encontrar-te
sem me libertar os meus olhos das vendas da tortura?
Como chegar
sem poder me libertar das amarras?
Como reconhecer-te,
se estas escondido nas profundezas?
Como saber se este ronco no meu peito
é sopro de vida ou anuncio da morte?
E agora, Pai, que definitivamente me abandonas-te
neste deserto povoado por milhões,
onde irei­?

Sento na beira da estrada
para não ser pisado
faço-me sombra
faço-me pedra
Eu, punho fechado encolhido em mim
espero,
quem sabe… um dia…  talvez…
ser triturado
transformar-me em pó
e poder, finalmente, voar.

São Paulo, Brasil, Semana Santa de 2010
Edith Moniz
Paolo D’Aprile